A qualidade dos carboidratos e o risco de câncer de pulmão: o que a ciência revela e como isso influencia sua saúde.

Um estudo recente reacende o debate sobre metabolismo, inflamação e carcinogênese pulmonar

O tabagismo permanece como o principal fator de risco para câncer de pulmão, mas não explica todos os casos. Pessoas que já pararam de fumar, idosos, indivíduos com resistência insulínica e pacientes que consomem poucas fibras continuam apresentando risco residual significativo.

Um dos maiores estudos prospectivos norte-americanos, baseado na coorte PLCO, que significa Prostate, Lung, Colorectal and Ovarian Cancer Screening Trial, analisou mais de 100 mil pessoas por mais de doze anos e revelou uma descoberta importante. A qualidade dos carboidratos consumidos influencia o risco de câncer de pulmão.

Neste artigo apresento os principais achados e explico, como oncologista, o que isso significa na prática clínica e na prevenção.

Quando a ciência olha para o prato: índice glicêmico e risco de câncer de pulmão

O estudo avaliou o impacto do índice glicêmico, que mede a velocidade com que um carboidrato eleva a glicose no sangue, e da carga glicêmica, que também considera a quantidade total consumida.

Os resultados mostram que o fator determinante não é a quantidade de carboidrato ingerido, mas sim a qualidade desse carboidrato.

Índice glicêmico elevado aumenta o risco de câncer de pulmão

Participantes que consumiam dietas com índice glicêmico alto apresentaram risco maior de desenvolver câncer de pulmão. O mesmo foi observado para tumores de não pequenas células e para tumores de pequenas células, que apresentaram risco ainda mais elevado.

Esses achados reforçam uma lógica metabólica já conhecida. Carboidratos ultraprocessados e de rápida absorção provocam picos glicêmicos, hiperinsulinemia, inflamação crônica e desregulação do eixo insulina IGF 1, criando um ambiente biológico favorável ao desenvolvimento de tumores.


Por outro lado, carga glicêmica alta mostrou efeito protetor

Esse resultado parece contraditório à primeira vista, mas faz sentido quando analisamos o padrão alimentar dos grupos estudados.

Carga glicêmica alta está associada a carboidratos de boa qualidade

Pessoas com carga glicêmica elevada consumiam mais frutas, vegetais, fibras, grãos integrais e micronutrientes antioxidantes.

Índice glicêmico alto está associado a carboidratos ruins

Nesse grupo predominavam açúcar refinado, farinha branca, alimentos industrializados, produtos açucarados e ultraprocessados.

Assim, a conclusão é clara. O risco não está na quantidade de carboidratos, mas sim na qualidade deles.


A explicação biológica: por que carboidratos ruins aumentam o risco

Carboidratos de alto índice glicêmico provocam alterações como:

• picos repetidos de glicose
• hiperinsulinemia crônica
• ativação excessiva do eixo insulina IGF 1
• estímulo de proliferação celular
• redução da apoptose, que é a morte celular programada
• aumento da inflamação sistêmica

Esse conjunto de fatores cria um ambiente permissivo ao crescimento tumoral, especialmente em tecidos já vulneráveis, como o pulmão de ex tabagistas ou de pessoas com doença pulmonar crônica.


O que esse estudo significa na prática clínica

Como oncologista, considero esse estudo uma peça importante para compreendermos o câncer de pulmão como uma doença multifatorial.

Alguns pontos merecem atenção.

O cigarro permanece como o principal fator de risco

Mas não explica todos os casos, especialmente em quem já parou de fumar há muitos anos.

Alimentação, metabolismo e inflamação também influenciam o risco

O impacto é ainda mais relevante em ex tabagistas, idosos e pessoas com resistência insulínica.

A qualidade dos carboidratos importa

Carboidratos complexos protegem. Carboidratos ultraprocessados aumentam o risco.

Intervenções nutricionais fazem parte da prevenção oncológica

Elas não substituem parar de fumar, mas reduzem riscos e melhoram o ambiente metabólico do organismo.


O contexto brasileiro: por que isso importa ainda mais

O Brasil vive uma transição alimentar caracterizada por:

• aumento de alimentos ultraprocessados
• redução do consumo de fibras
• aumento de obesidade e resistência insulínica
• maior prevalência de diabetes

Segundo dados da POF IBGE, mais da metade das calorias ingeridas pelos adultos brasileiros vêm de carboidratos, e mais de vinte por cento vêm de ultraprocessados. O consumo de alimentos integrais e de fibras é insuficiente.

Esse padrão alimentar reproduz o ambiente metabólico que, no estudo americano, aumentou o risco de câncer de pulmão.


O que podemos fazer

Prefira carboidratos complexos

Frutas, legumes, verduras, grãos integrais, raízes e leguminosas.

Evite carboidratos ultraprocessados

Açúcares, farinhas refinadas, refrigerantes, biscoitos, bolos e produtos industrializados.

Controle glicemia e insulina

Ambientes metabólicos saudáveis reduzem a inflamação sistêmica.

Não fumar é essencial

Mas alimentação e metabolismo também são parte fundamental da prevenção.


Conclusão

A qualidade dos carboidratos exerce impacto real sobre o risco de câncer de pulmão. Dietas ricas em fibras, grãos integrais e alimentos naturais oferecem proteção. Dietas ricas em açúcar e ultraprocessados aumentam o risco.

Esse estudo reforça algo que observamos na prática clínica. A prevenção oncológica não se resume ao cigarro. Ela inclui escolhas alimentares, equilíbrio metabólico e hábitos que reduzem inflamação.

Cuidar do que colocamos no prato é uma atitude simples e poderosa para reduzir riscos e fortalecer a saúde.


Referências científicas

  1. Wang J, et al. Dietary Glycemic Index, Glycemic Load, and Risk of Lung Cancer: A Population Based Cohort Study. Annals of Family Medicine. 2025. Baseados em dados da coorte PLCO. DOI: 10.1370 afm.250132.
  2. PLCO Cancer Screening Trial. National Cancer Institute. Coorte norte americana utilizada para estudos epidemiológicos de grande escala.
  3. Giovannucci E. Insulin, IGF 1 and cancer biology. J Nutr. 2001. Artigo fundamental sobre a relação entre hiperinsulinemia, metabolismo e risco de câncer.
  4. Monteiro CA, et al. Ultra processed foods and health outcomes. Public Health Nutrition.
  5. IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares, 2017 e 2018. Brasília, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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